Deslocamentos
Estudiosos do trânsito automobilístico urbano brasileiro profetizam em poucos anos a saturação da maior metrópole brasileira, São Paulo. Em 10 anos, segundo especialistas, a cidade irá parar! Seguindo o mesmo rumo caótico, outras metrópoles estão ficando cada vez mais congestionadas nos horários de pico, causando diversos transtornos a população. O automóvel, criado para facilitar a locomoção, percorrendo um longo espaço geográfico em menos tempo, ironicamente, no futuro acabará estagnando a cidade.
Teóricos
da Internacional Situacionista, grupo artístico, crítico e político do final
dos anos 50, anunciavam críticas ao urbanismo moderno por se preocupar em
preparar as cidades para os carros ao invés de pensá-la sendo utilizada por
veículos alternativos. Observamos esse reflexo na contemporaneidade.
Como
transporte alternativo aos veículos automotores, a bicicleta surge como um
transporte ideal para locomoção espacial pelos benefícios que traz saúde de
quem a utiliza e por não produzir a liberação de poluentes. Nesse quesito, essa
atividade funciona como uma atividade física, trabalhando a musculatura do
corpo, aumentando a disposição física, etc. Vontade de manter-se saudável.
No
entanto, percebemos ao observar os praticantes dessa atividade, que na sua
maioria são trabalhadores que buscam economizar suas passagens em transportes
coletivos, que arriscam suas vidas atravessando a cidade se espreitando pelas
encostas das vias de tráfego automobilístico. São pouquíssimos os que possuem os
itens mínimos para a segurança como retrovisores, buzinas, capacete e faróis.
Entretanto, com nosso clima
irregular, onde após uma tarde ensolarada pode-se ter uma chuva torrencial;
onde temos um trânsito com um número considerável de pessoas desrespeitosas e sem
escrúpulos, que colocam em risco vidas alheias; numa cidade onde se projetam
belíssimos canteiros centrais em vias de grande fluxo de veículos, com o
discurso de via ecológica, negligenciam os dados estatísticos que presenciamos
diariamente, principalmente quem trafega pelas cidades vizinhas que compõem a
Região Metropolitana de Belém, percebe-se a impossibilidade de se utilizar o
transporte ciclístico com segurança, devido o despreparo físico da cidade.
O trabalho vem fazer uma alusão romântica
sobre a necessidade de se pensar nesse transporte alternativo aos carros, que
tanto faz bem a saúde, que tem manutenção de custo irrisório e, principalmente,
que não polui nossa região amazônica, tão rica e fabulosa.
Propõem-se ao espectador a
possibilidade de vivenciar o trajeto de uma cidade à outra utilizando a
bicicleta como meio de transporte, em uma urbe com pouquíssimos carros, onde o
fim do percurso seria o local onde estão: o Banco da Amazônia.
A proposta trata-se de uma instalação
onde se encontrarão 10 bicicletas brancas, minimamente elevadas por uma
estrutura que permita o espectador/fruidor pedalá-la sem promover deslocamento
espacial. Bicicletas de vários estilos e tamanhos como: cargueiras, de corrida,
de manobra, infantis, novas e velhas. Todas brancas fazendo analogia ao grupo
Provos que na década de 60 propôs a prefeitura de Amsterdam que interditassem a
entrada de veículos motorizados na entrada de algumas áreas da cidade e que se
distribuíssem gratuitamente bicicletas brancas para que a população se
deslocasse.
Em frente, um vídeo que registra o
percurso desde o município de Marituba, passando por Ananindeua até chegar ao
Banco da Amazônia, cortando toda a cidade de Belém, filmado em horário de pouco
movimento de carros, logo após o nascer do sol pela manhã. Será, de forma
metafórica, a ocupação da cidade pelas bicicletas. Será proposto aos visitantes
da exposição que pedalem nessa viajem!
Abaixo, a simulação de como será ocupada parte da galeria.
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CARTA DE INTENÇÃO DA
CURADORIA
Belém, 16 de fevereiro
de 2009.
Prezados Senhores,
Venho acompanhando a produção de
Murilo Rodrigues há algum tempo e percebo sua preocupação com as relações
complexas em torno da cidade e seus fluxos. Daí, seus projetos de arte sempre
estabelecem afinidade ora com o comportamento de seus habitantes, ora com a
própria estrutura física e funcional do espaço urbano.
Percebendo que este jovem artista
é um dos poucos que vem desenvolvendo projetos dentro de uma perspectiva de
diálogo com a urbe e que suas instalações, ações performativas e sites
específicos são proposições singulares e que ampliam a ação artística do Espaço
Cultural Banco da Amazônia para além de seu espaço expositivo é que aceito
acompanhar esta proposta de arrojada atuação e particular beleza.
Murilo Rodrigues rompe com a
noção mais corriqueira do Belo e nos faz pensar na cidade como base para suas
proposições artísticas e que encontram no Espaço Cultural do Banco da Amazônia
o espaço de irradiação desta proposição.
Assim, atesto meu interesse
particular em ver realizada esta proposta artística, que amplia a atuação do
Espaço Cultural do Banco da Amazônia, inserindo-o, no caso de sua realização,
num território de rica complexidade no qual a Arte transborda do espaço
expositivo para a cidade, trazendo, num movimento de reciprocidade, os ecos das
ações na cidade para a galeria.
Cordialmente,
Orlando Maneschy
Doutor em Comunicação e Semiótica
Professor Adjunto da FAV/UFPA
Curador Independente














