sábado, 10 de novembro de 2012

EXPOSIÇÃO DESLOCAMENTOS (Vídeo-instalação,2009) - Prêmio Banco da Amazônia de Artes Visuais - Dossiê

Abaixo o Dossiê apresentado:

Deslocamentos
            Estudiosos do trânsito automobilístico urbano brasileiro profetizam em poucos anos a saturação da maior metrópole brasileira, São Paulo. Em 10 anos, segundo especialistas, a cidade irá parar! Seguindo o mesmo rumo caótico, outras metrópoles estão ficando cada vez mais congestionadas nos horários de pico, causando diversos transtornos a população. O automóvel, criado para facilitar a locomoção, percorrendo um longo espaço geográfico em menos tempo, ironicamente, no futuro acabará estagnando a cidade.

Teóricos da Internacional Situacionista, grupo artístico, crítico e político do final dos anos 50, anunciavam críticas ao urbanismo moderno por se preocupar em preparar as cidades para os carros ao invés de pensá-la sendo utilizada por veículos alternativos. Observamos esse reflexo na contemporaneidade.

Como transporte alternativo aos veículos automotores, a bicicleta surge como um transporte ideal para locomoção espacial pelos benefícios que traz saúde de quem a utiliza e por não produzir a liberação de poluentes. Nesse quesito, essa atividade funciona como uma atividade física, trabalhando a musculatura do corpo, aumentando a disposição física, etc. Vontade de manter-se saudável.

            No entanto, percebemos ao observar os praticantes dessa atividade, que na sua maioria são trabalhadores que buscam economizar suas passagens em transportes coletivos, que arriscam suas vidas atravessando a cidade se espreitando pelas encostas das vias de tráfego automobilístico. São pouquíssimos os que possuem os itens mínimos para a segurança como retrovisores, buzinas, capacete e faróis.

            Entretanto, com nosso clima irregular, onde após uma tarde ensolarada pode-se ter uma chuva torrencial; onde temos um trânsito com um número considerável de pessoas desrespeitosas e sem escrúpulos, que colocam em risco vidas alheias; numa cidade onde se projetam belíssimos canteiros centrais em vias de grande fluxo de veículos, com o discurso de via ecológica, negligenciam os dados estatísticos que presenciamos diariamente, principalmente quem trafega pelas cidades vizinhas que compõem a Região Metropolitana de Belém, percebe-se a impossibilidade de se utilizar o transporte ciclístico com segurança, devido o despreparo físico da cidade.
       O trabalho vem fazer uma alusão romântica sobre a necessidade de se pensar nesse transporte alternativo aos carros, que tanto faz bem a saúde, que tem manutenção de custo irrisório e, principalmente, que não polui nossa região amazônica, tão rica e fabulosa.

            Propõem-se ao espectador a possibilidade de vivenciar o trajeto de uma cidade à outra utilizando a bicicleta como meio de transporte, em uma urbe com pouquíssimos carros, onde o fim do percurso seria o local onde estão: o Banco da Amazônia.

            A proposta trata-se de uma instalação onde se encontrarão 10 bicicletas brancas, minimamente elevadas por uma estrutura que permita o espectador/fruidor pedalá-la sem promover deslocamento espacial. Bicicletas de vários estilos e tamanhos como: cargueiras, de corrida, de manobra, infantis, novas e velhas. Todas brancas fazendo analogia ao grupo Provos que na década de 60 propôs a prefeitura de Amsterdam que interditassem a entrada de veículos motorizados na entrada de algumas áreas da cidade e que se distribuíssem gratuitamente bicicletas brancas para que a população se deslocasse.

            Em frente, um vídeo que registra o percurso desde o município de Marituba, passando por Ananindeua até chegar ao Banco da Amazônia, cortando toda a cidade de Belém, filmado em horário de pouco movimento de carros, logo após o nascer do sol pela manhã. Será, de forma metafórica, a ocupação da cidade pelas bicicletas. Será proposto aos visitantes da exposição que pedalem nessa viajem!
            Abaixo, a simulação de como será ocupada parte da galeria.


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CARTA DE INTENÇÃO DA CURADORIA

Belém, 16 de fevereiro de 2009.


Prezados Senhores,


Venho acompanhando a produção de Murilo Rodrigues há algum tempo e percebo sua preocupação com as relações complexas em torno da cidade e seus fluxos. Daí, seus projetos de arte sempre estabelecem afinidade ora com o comportamento de seus habitantes, ora com a própria estrutura física e funcional do espaço urbano.

Percebendo que este jovem artista é um dos poucos que vem desenvolvendo projetos dentro de uma perspectiva de diálogo com a urbe e que suas instalações, ações performativas e sites específicos são proposições singulares e que ampliam a ação artística do Espaço Cultural Banco da Amazônia para além de seu espaço expositivo é que aceito acompanhar esta proposta de arrojada atuação e particular beleza.

Murilo Rodrigues rompe com a noção mais corriqueira do Belo e nos faz pensar na cidade como base para suas proposições artísticas e que encontram no Espaço Cultural do Banco da Amazônia o espaço de irradiação desta proposição.

Assim, atesto meu interesse particular em ver realizada esta proposta artística, que amplia a atuação do Espaço Cultural do Banco da Amazônia, inserindo-o, no caso de sua realização, num território de rica complexidade no qual a Arte transborda do espaço expositivo para a cidade, trazendo, num movimento de reciprocidade, os ecos das ações na cidade para a galeria.


Cordialmente,

Orlando Maneschy
Doutor em Comunicação e Semiótica
Professor Adjunto da FAV/UFPA
Curador Independente

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